Destinos Montevideo
Carne de primeira, bons vinhos, pequenas ousadias a até tango: a capital uruguaia cresceu e já tem tudo aquilo que você também encontra em Buenos Aires. Mas à sua maneira, sem pressa, tratando de preservar o que de melhor ficou dos velhos tempos: a qualidade de vida, a gentileza em cada esquina e um jeito de cidade do interior que fará você se esquecer que esta é a capital de um país.
O fato é que Montevideo nunca teve muita vocação para a pressa. Em que outra capital latino-americana os motoristas, mesmo com o sinal verde, esperam você cruzar a rua? Em que metrópole as pessoas sentam-se à soleira das portas, em pleno Centro, para tomar mate? Pena que tantos turistas não se dêem conta disso. Para muitos, a capital uruguaia não passa de escala para uma visita apressada no caminho entre Buenos Aires e Punta del Este, carente de grandes atrações, daquelas de tirar foto e comprar suvenir. Montevideo é a cidade para se degustar despacito, permitindo-se gastar o tempo flanando pela orla ou sentado num desses cafés cuja decoração não muda há pelo menos cinco décadas.
Montevideo não teve pressa nem para nascer. Temporã entre as metrópoles da América hispânica, a cidade foi criada só em 1726, quase 200 anos depois da fundação de Buenos Aires, quando os espanhóis importaram meia dúzia de famílias das Ilhas Canárias para estabelecer-se no que viria a se chamar San Felipe y Santiago de Montevideo. As razões eram estratégicas: os portugueses, firmados em Colonia del Sacramento, davam francos sinais de avanço de seus domínios sobre o Rio da Prata.
Nas décadas seguintes, a cidade foi base naval da Coroa espanhola, porto de escravos e uma valiosa porta de entrada e de saída para o comércio da prata que movimentava as artérias fluviais da América do Sul. Em 1828, com apenas 100 anos de vida e 15 mil habitantes, Montevideo tomou-se a capital do Uruguai, a última nação da América do Sul a conquistar a independência.
As transformações dos últimos anos parecem ter poupado a simpatia e a polidez. Certas coisas, como os montevideanos bem sabem, não têm a menor necessidade de mudar. Para que a pressa?
Grandes mudanças na Ciudad Vieja - Montevideo
Se Montevideo um dia teve pressa, foi na primeira metade do século 20, quando as duas guerras na Europa permitiram que a exportação da carne uruguaia vivesse o maior boom de sua história. Enriquecido, o Uruguai investiu na modernização e no bem-estar social, atingindo níveis superiores aos de muitas nações européias - muitos dos quais mantidos até hoje. Foram os anos da chamada "Suíça da América".
Sinais visíveis dessa idade do ouro na capital são o Palacio Salvo, erguido em 1925 para ser o edifício mais alto da América Latina; o Palacio Legislativo, um dos congressos mais bonitos do mundo; e o Estádio Centenario, inaugurado em 1930 com o jogo inicial da primeira Copa do Mundo.
A cidade chegou ao final dos anos 50 com pouco mais de 1 milhão de habitantes. E, então, parou. O Uruguai todo parou, mergulhado numa crise da qual nunca se recuperou, agravada pelos anos escuros da ditadura militar (1973-1980). A taxa de natalidade caiu, a taxa de emigração subiu e a população da capital continuou com o mesmo milhão de moradores até hoje. Quem ficou, passou a desfrutar sua lenta decadência, tratando de fazer perdurar as coisas boas que sobravam daqueles tempos de fausto.
É bem sabido que os uruguaios não são muito afeitos às grandes transformações. Contagiado por uma nostalgia crônica, o Uruguai dos últimos 50 anos tomou-se um lugar onde as novidades sempre demoravam um pouco mais para chegar. Na capital, onde vive quase metade da população do país (3,5 milhões), não era diferente.
Roteiros em Montevideo
Mas novidades, por mais que se resista, sempre chegam. A onda que nasceu em Buenos Aires e bateu em Punta del Este haveria de, mais cedo ou mais tarde, varrer Montevideo. Começou de forma sorrateira há uma década, quando artistas plásticos vieram instalar seus ateliês nas ruas vizinhas ao porto, "quando isto era só estivadores e gente de mala vida" - lembra Ana Baxter, pintora estabelecida há cinco anos na área. "Eles tiveram uma intuição".
O porto é abertura: para você e para os outros! Dito e feito. De repente, navios de cruzeiro começaram a materializar-se no porto de Montevideo. Quando isso acontece, mais de 2 mil turistas enchem de uma vez só as ruas da Ciudad Vieja, como é chamada a parte mais antiga e, ao mesmo tempo, a mais degradada da capital. Há dez anos, eles não tinham muita opção a não ser almoçar no Mercado del Puerto, onde estão as melhores parrillas da cidade. Com o tempo, o governo reformou alguns dos belíssimos edifícios históricos, muitos do século 19, e acabou criando um corredor de atrações que interliga a Plaza Indepedencia, a mais importante da cidade, a Plaza Constitución, coração da velha Montevideo, e o mercado.
Hoje os visitantes têm pelo menos dez museus à disposição só na Ciudad Vieja. Destaco alguns: o Museo Torres García, que reúne obras do maior expoente da pintura uruguaia; o Museo Gurvich, dedicado a um de seus discípulos e mais bem montado que o do mestre; o Museo Histórico Nacional, instalado na casa do primeiro presidente uruguaio; e o novíssimo Museo del Carnaval, que revela curiosidades do Carnaval mais longo do mundo. Vale também espiar o Teatro Solís, inaugurado há 140 anos e recém-restaurado. As visitas guiadas incluem números de clown.
As grandes mudanças da Ciudad Vieja, porém, não estão nas obras do governo, e sim nos pequenos empreendimentos privados. A rua 25 de Mayo, por exemplo, tomou-se a preferida de designers descolados como Fernando Escuder, Ana Livni e Luciana Premazzi. Já a Pérez Castellanos tomou-se um ímã para a instalação de ateliês como o de Ana Baxter e galerias de arte contemporânea.
A isso, soma-se o número cada vez maior de estrangeiros que têm comprado velhos casarões da área para transformá-Ios em casas de veraneio ou bens de investimento. "Em qualquer lugar do mundo, o Centro antigo é a parte mais bonita da cidade".
Delícias de Montevideo
Não só de bifes se faz uma cidade. Uma vez na capital uruguaia, não deixe de provar suas especialidades.
O chivito: é o sanduíche nacional do Uruguai, e pode ser encontrado em qualquer lanchonete de Montevideo. Peça logo o canadiense, que leva de tudo: carne, ovo, pimentão, bacon, azeitonas, tomate e alface.
O melhor doce de leite do mundo é uruguaio e chama-se Conaprole. Nos cardápios da cidade, pode ser encontrado como recheio de panqueca ou como acompanhante de pudim. Não se esqueça de levar um pote para casa.
Os sorvetes da La Cigale não deixam nada a dever aos argentinos. Não deixe de provar o de arándanos (mirtilos) uruguaios ou um dos tantos que têm o doce de leite como base.
Cidade de imigrantes italianos, Montevideo tem uma pizzaria em cada esquina. Procure pelas pizzetas, quadradas e de massa grossa, mais próximas das originais italianas, e pela pizza de fainá, feita com massa de grão-de-bico.
La Pasiva é uma choperia com filiais espalhadas pela cidade inteira. Seu forte são os panchos, cachorros-quentes em que tudo é especial: o pão, a salsicha e a mostarda.
Tannat, o vinho da vez: As primeiras sementes da uva tannat, casta obscura dos Pireneus franceses, foram trazidas ao Uruguai em 1870 por um imigrante basco.
A uva adaptou-se tão bem ao clima local que os tintos tannat tornaram-se tão emblemáticos do Uruguai quanto os carrnénére do Chile. Um século depois, consultores franceses ensinaram como melhorar a qualidade dos vinhos. Deu certo: no ano passado, 30 tintos uruguaios conquistaram medalhas de ouro e de prata em concursos internacionais. São vinhos em geral muito adstringentes, perfeitos para acompanhar carnes.
Lugar ideal para comprovar essa tese é o restaurante Tannat, especialista na uva. Além de compor uma adega respeitável, os tintos uruguaios figuram também nas excelentes receitas da casa, muitas com carnes exóticas, como o filé de nandú (ema). Outros pratos do menu são o taglietelle de tannat e um delicioso sorvete de tannat regado a licor de tannat. "Por causa do tanino, é um dos vinhos mais fortes que há, com um sabor muito especial", resume o jovem chef pablo Saravia.
Ao contrário do que ocorre em Buenos Aires, as vinícolas uruguaias ficam a 15 minutos do centro de Montevideo. Muitas abrem para degustações e visitas a suas belas propriedades. É o caso da Bouza, bodega-butique que tem até museu de calhambeques, e da Juanicó, cuja cava é uma das mais antigas da América Latina.
Serviços em Montevideo
Melhor época: Maio e junho, já que o calor ainda não é tanto como o de julho e os preços já não são altos como os de dezembro a março. De agosto a outubro, há risco de furacões.