

Até hoje, quem desembarca em Belém pela primeira vez sente o mesmo impacto que sentiram os primeiros navegantes europeus. Apesar das fotos e dos incontáveis clichês que difundem as grandezas da Amazônia para turistas do mundo inteiro, a experiência de conhecer a profusão de águas e a densa floresta continua a ser única.
Belém foi fundada em 1616, como um marco para a consolidação do poderio português sobre a maior floresta tropical do planeta. Nasceu em torno do Forte do Presépio, edificado para espantar ingleses, holandeses e franceses, que cobiçavam a região.
Seu primeiro nome, Feliz Lusitânia, indica um pouco do clima aprazível do lugar, muito embora também tenha sido palco de sangrentos conflitos entre nativos e colonizadores. A localização estratégica de Belém fez dela o portal da Amazônia, de onde partiram todas as expedições portuguesas para a colonização da floresta e por onde passavam todas as especiarias extraídas rumo à Europa.
Esses 390 anos de história conferem à cidade a posição de capital cultural da Amazônia, uma espécie de síntese da cultura cabocla do norte do Brasil. Um destino indicado para quem curte natureza, mas não abre mão de cultura, história e tradições.


Mais um temporal se arma em Belém. Frutas maduras caem aos montes das mangueiras que sombreiam o centro da cidade. Uma moradora comenta comigo: "pois é, aqui, só morre de fome quem quer. Se não tiver o que comer, pega manga do pé". Os belenenses são assim, conscientes e orgulhos das riquezas naturais de sua terra, acostumados com a abundância de recursos vindos de todas as partes da floresta.
O extrativismo está no centro da economia amazônica, e Belém sempre foi destino obrigatório na rota das especiarias retiradas da floresta. A cidade cresceu em torno do mercado central, uma grande feira livre criada onde existia uma aldeia Tupinambá.
Em 1688, diante do aumento do fluxo de mercadorias, os portugueses criaram um posto de controle para pesar e taxar tudo que passava por ali. Desde então, o mercado ganhou o nome de Ver-o-Peso. Se você quer conhecer Belém em sua essência, comece por uma boa visita ao mercado. Ali você vai entender melhor essa conversa de fartura. Vai conhecer peixes de águas doce e salgada e provar frutas exóticas, como copaíba, bacuri, cupuaçu, açaí, teperebá e pupunha?
Além disso, vai ver uma porção de outras coisas: frutos do mar, legumes, carnes, vários tipos de farinha, comidas típicas, bugigangas. Até quem tem imaginação fértil se surpreende com coisas que não esperava ver.
Um setor tradicional e curiosíssimo do Ver-o-Peso é o das ervas, garrafadas e mandingas. É onde você encontra a cura para tudo: pedra nos rins, indigestão, calvície, insônia, cólica, inflamação, dor de cabeça e até impotência.


O mercado, o rio, as ruas arborizadas, a floresta próxima e a chuva sempre presente fazem de Belém uma cidade cheirosa. “Nortista gostosa”, “cidade pomar”, como bem definiu Manuel Bandeira, em 1928. Mas a forma mais gostosa de sentir as tradições locais é com o paladar. A culinária local é, literalmente, um prato cheio, com ingredientes excitantes. Dentre os peixes, destaque para o filhote, que tem carne suculenta com sabor marcante. O caranguejo toc-toc também é muito gostoso e a graça está no baita trabalho que dá ficar usando um martelinho para abrir a carcaça do bicho.
O tucupi já entrou para o folclore nacional. É um caldo feito com o suco da mandioca-brava, também conhecida como maniva, que precisa ser fervido por quatro dias para perder todas as substâncias tóxicas. A esse suco, que tem gosto azedo, é adicionado o jambu, uma erva que tem a extasiante propriedade de deixar a boca dormente. O paraense gosta de misturar tucupi com qualquer tipo de carne, mas o pato no tucupi é um dos pratos locais mais famosos.
A verdadeira mania local é o açaí. Para os paraenses, o suco espesso feito a partir da polpa da fruta é mais imprescindível que o arroz e o feijão. Misturado com farinha e gelo, vai muito bem com os peixes fritos. Para acompanhar a comida, uma grande variedade de sucos e sobremesas feitos com frutas amazônicas.


A Estação das Docas, que recebeu R$ 19 milhões de investimento, é apenas uma de muitas iniciativas recentes do governo local para criar uma estrutura turística na cidade. O visitante irá se surpreender também com a qualidade dos museus e com a restauração do centro histórico de Belém.
A Igreja de Santo Alexandre, erguida pelos jesuítas no final do século 18, é exemplo de uma atração que não dá para perder. Foi recuperada para receber o Museu de Arte Sacra, que tem acervo de 320 peças. Dentre esculturas de diversas tendências, destaque para as produzidas na região. Repare nos olhos puxados dos santos. Quem esculpiam eram os índios, seguindo ordens dos padres portugueses.
Também foi restaurado o Forte do Presépio, onde a cidade nasceu. De lá, vê-se um belo panorama do rio e do centro histórico da cidade. No interior da construção está o Museu do Encontro, focado na história da miscigenação (nem sempre pacífica) de portugueses e índios.
Na mesma praça, um antigo Hospital Militar, construído no século 18, se transformou na Casa das Onze Janelas, onde há exposições e eventos culturais. Ali perto, dois palácios erguidos no áureo período da borracha (final do século 19) também passaram a abrigar museus. O Palácio Lauro Sodré virou o Museu do Estado do Pará e o Palácio Antônio Lemos agora sedia o Museu de Arte de Belém.
Próximo ao centro histórico, estão outras jóias que merecem ser conhecidas. Uma delas é o Theatro da Paz, inaugurado em 1878, depois de nove anos de obras, e restaurado recentemente. A construção teve como modelo o Teatro Scalla, de Milão, e a decoração interna foi toda trazida da Europa. Fica no centro da Praça da Independência, a mais bela e arborizada da cidade.
Outra construção suntuosa é a Basílica de Nazaré, que começou a ser construída em 1909 e só foi terminada na década de 1960. O monumento foi erguido no local em que o pescador Plácido José encontrou a imagem da Virgem de Nazaré, em 1700. Por considerar o achado um milagre, ele construiu ali uma capela, que se transformou em local peregrinação e deu origem à maior festa popular religiosa do Brasil, o Círio de Nazaré, que atrai cerca de 2 milhões de romeiros à cidade durante o mês de outubro.
O Theatro e a Basílica estão em uma área cujos monumentos foram construídos com os recursos dos antigos barões da borracha. Outra atração que não dá para perder na mesma região é o Museu Emílio Goeldi, um pedaço da floresta no meio da cidade, onde estão diversos animais de espécies em extinção. Inaugurado em 1866, é também um centro de pesquisas pioneiro no estudo dos recursos naturais da Amazônia.
Belém está muito próxima à linha do Equador. Por isso, as variações de temperatura são muito pequenas durante todo o ano. A chuva também é uma constante e já faz parte da identidade da cidade. O inverno e o verão são trocados com relação às outras regiões do Brasil. Entre junho e dezembro é a época das pancadas de chuva nos fins de tarde, considerada verão. A alta temporada para o turismo ocorre entre dezembro e fevereiro, em julho, na férias, e em outubro, quando acontece o Círio de Nazaré.