Portugal: Tudo é perto na terra de Camões
Embarque nesta viagem de carro, que começa em Lisboa, passa pelas praias do Algarve, no sul, e vai até o Porto, no norte. Tudo é pertinho na terra de Camões
POR MÁRIO FITTIPALDI
Leia com atenção esse roteiro, porque depois de acompanhar essa viagem de carro por Portugal, você certamente vai querer fazer o mesmo. O país é acolhedor e encanta com as paisagens, a cultura e a história, os sabores da sua culinária e de seus vinhos.
Para os brasileiros há ainda a facilidade do idioma - embora com sutis diferenças, ninguém se aperta com o português da terra de Camões, Pessoa e Saramago. A maior vantagem, no entanto, é que Portugal é um país pequeno. De Bragança, no extremo norte, ao Faro, ao sul,são apenas 705 km. De carro,poderiam ser percorridos em um só dia. Mas a graça está em viajar sem pressa, quase que vila a vila, a desvendar os segredos de uma terra que surpreende a cada quilômetro.
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Portugal: Cultura milenar
Portugal é uma terra de cultura milenar povoada desde os tempos imemoriais e com quase nove séculos de história como nação, construídos sobre as pegadas que deixaram durante seu passo por terras ibéricas os celtas, fenícios, gregos, romanos e árabes, cujas marcas profundas formam parte da idiossincrasia.
De norte a sul, a cada passo, pode-se ter um encontro com o passado, visitando castelos, contemplando o trabalho realizado sobre pedras das catedrais, ou a suntuosidade da madeira talhada, deleitando-se com a elegância clássica dos palácios ou com uma surpreendente viagem no tempo dentro de uma muralha medieval.
A cultura portuguesa é baseada num passado que remonta aos tempos pré-históricos das invasões dos Romanos e Mouros. Todos eles deixaram as suas marcas, deixando uma rica herança de ruínas arqueológicas, tais como o Templo de Diana em Évora, e a típica arquitetura moura de cidades do Sul, como Olhão e Tavira.
Ao longo dos séculos, a arte portuguesa tem sido enriquecida por influências externas. As viagens dos descobridores portugueses contribuíram para que o país ficasse mais aberto às influências orientais e a revelação da riqueza brasileira, em jóias e ouro, influenciou a utilização da "chama" barroca na decoração.
Portugal: Aonde ir?
Lisboa, o ponto de partida.
Poucas cidades no mundo são tão encantadoras como Lisboa. Mesmo quem já a conhece bem dificilmente deixa de descobrir novos atrativos. Quem ainda não a conhece, vai encontrar uma cidade tradicional e charmosa, das ruelas da Alfama, que serpenteiam morro acima espremidas entre casarões do século 18. Mas que agora convive com a Lisboa moderna, cosmopolita, que surge às margens do Tejo. Num país de inegável vocação marítima, cujas glórias foram forjadas pela bravura de seus indômitos navegantes, o tema da Expo-98 não poderia ser outro senão os oceanos. Da Expo restou uma bela herança: o Parque das Nações, onde velhos armazéns à beira-rio deram lugar a restaurantes e cafés da moda, antenados com a culinária tradicional portuguesa e contemporânea; e o maior presente à cidade: o Oceanário. Trata-se de visita obrigatória. Com o objetivo de reunir e transmitir conhecimento sobre a vida marinha de todo o planeta, reúne espécies de todos os oceanos num imenso aquário central com 5 milhões de litros de água salgada, visível de qualquer ponto do complexo. À sua volta ficam recintos menores que reproduzem o hábitat marinho dos oceanos Atlântico Norte, Pacífico Temperado, Índico Tropical e Antártico, entre outras atrações e exibições especiais. Antes de encarar a estrada rumo a outras paragens, não deixe de passear pelo Rossio,Baixa, Alfama e Chiado, os pontos mais tradicionais. Um bom começo é seguir a pé pela Rua Augusta, um calçadão que liga o Rossio ao portal na Praça do Comércio.
Outra boa pedida é o elevador de Santa Justa, na paralela Rua de Santa Justa. Ele liga a Baixa ao Chiado, na Praça do Carmo, e foi recém-reformado. No topo da torre há também um café - e uma bela vista da cidade. O Chiado, tradicional reduto de intelectuais, é repleto de lojas e ateliês de artistas. Vale a pena uma parada no Café A Brasileira, que já foi freqüentado por Fernando Pessoa - há até uma estátua dele à mesa, convidando os turistas para uma foto. Nada mais pitoresco do que continuar o passeio de bonde - que lá se chama eléctrico. Alinha 28 faz um verdadeiro tour pela região, percorrendo ruas do Chiado e o Rossio rumo à Alfama. Não tenha pressa: o coletivo pára o tempo todo e os motorneiros conversam com todo mundo pelo caminho, como numa provinciana cidade do interior. Se você saltar do bonde no coração da Alfama, pode visitar ainda o Castelo de São Jorge. Trata-se de uma antiga cidade mourisca cercada por muralhas antes de ser reconquistada por Afonso Henriques, em 1147, e transformado em residência oficial dos reis portugueses. De lá se tem, talvez, a mais bela vista de Lisboa.
Uma boa pedida para encerrar o passeio em Lisboa é uma visita a Belém, um bairro arborizado e repleto de parques. Além dos famosos pastéis que levam o seu nome (no resto do país a iguaria é conhecida como pastel de natas), é lá que estão o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. É aberto à visitação e abriga, além de um museu, os restos mortais de Luís de Camões e de Vasco da Gama. Já a Torre de Belém foi construída como um forte exatamente na embocadura do Tejo. É um cartão-postal de Portugal que merece ser visitado.
Praias no Algarve
No extremo sul de Portugal, a região do Algarve reúne as praias mais bonitas e badaladas, quase sempre cercadas pór belas falésias, além de cidades pitorescas e repletas de sítios históricos e arqueológicos Faro, a capital, costuma ser a porta de entrada para turistas que chegam de toda a Europa em busca do clima mais quente da região. Além do aeroporto internacional, a cidade oferece uma ampla rede hoteleira e ótimos restaurantes.
Albufeira
Se você estiver viajando na baixa temporada, fique em Albufeira. É, de longe, a cidade mais badalada do Algarve e a preferida dos turistas. Suas casas caiadas se projetam nas falésias de cor ocre, constituindo uma paisagem única. No centro,as ruas, transformadas em calçadões, estão repletas de lojas, cafés e restaurantes.Depois da praia, é onde rola a badalação e o agito noturno.Outra vantagem de Albufeira é sua localização estratégica, bem no centro do litoral do Algarve. Em Portimão, uma das maiores cidades da região, há a badaladíssima Praia da Rocha. A cidade também apresenta uma bela marina na foz do Rio Arade,onde podem ser contratados passeios de barco pela região.Finalmente, não deixe de visitar Lagos, que foi a capital do Algarve de 1576 a 1756 e,sobretudo, o porto de Dom Henrique, o Infante. Lagos possuem também uma das praias mais procuradas pelos jovens, a praia Dona Ana.
As planícies do Alentejo
Saindo do Algarve rumo ao interior, já se percebe a mudança de paisagem. A cena alentejana dominante é composta por imensas planícies e campos que se fartam de cores na primavera e verão, tendendo ao dourado no outono. No Alentejo, Há muito o que ver por lá, desde sítios arqueológicos de várias épocas,às feiras, mercados e festas,religiosas ou não - qualquer vila ou povoado tem a sua.. Percorra a região com calma. Vale a pena uma parada em Beja para a visita ao Castelo de Beja,uma grande construção militar iniciada durante o reinado de Afonso III, no final do século 13,que conta com uma grande torre toda construída em mármore.
Imersão na história
Évora é a jóia histórica de Portugal, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em1986. A cidade antiga, cercada por muralhas construídas pelos romanos e reconstruídas na era medieval e no século 17, concentra muitos sítios históricos. As ruas são muito estreitas e, como a cidade é pequena, é melhor percorrê-las a pé.
Comece seu passeio pela Praça de Giraldo, de lá, chega-se fácil aos pontos altos da visita, como o Templo Romano, o Museu de Évora e a Sé.O Templo Romano, também conhecido como Templo de Diana, fica defronte ao Largo Conde Vila Flor. À sua volta ficam o Convento dos Lóios, um mosteiro de 1485 que hoje é pousada de luxo, e o Museu de Évora, com importante coleção de peças arqueológicas. Logo abaixo chega-se à Catedral, que,com suas três majestosas naves,lembra uma fortaleza romana. A região das Beiras é cortada pela majestosa Serra da Estrela e sua principal cidade é a bela e florida Viseu. Aqui vale a pena visitar o centro antigo,bem como a Catedral, cuja fachada do século 17 substituiu a original de arquitetura manuelina, que ruiu. A Igreja da Misericórdia, com sua fachada rococó e interior todo dourado, também vale uma visita. Atração à parte é a região vinícola do Dão, que se estende nos arredores de Viseu, ao longo do rio de mesmo nome. As videiras são cultivadas quase sempre por pequenos proprietários de quintas localizadas em pequenas cidades ou vilarejos, como Penalva do Castelo, Mangualde e Sezures, entre muitos outros. A charmosa Penalva do Castelo reúne, ainda, um belo solar, a Casa da Ínsua, que dá nome a um excelente vinho tinto da região, e uma ponte medieval, construída em pedra.
Porto cultural
O Porto, na Região Norte de Portugal, é uma atração à parte. A cidade farta em programação cultural, é a segunda maior do país, e ergue-se a partir de uma majestosa colina às margens do Rio Douro. É também a terra do vinho licoroso que leva o seu nome. Por tudo isso, reserve um pouco mais de tempo para ela. Há muito o que fazer por lá. A visita às caves dos produtores de Vinho do Porto - que, a despeito do nome, ficam na vizinha Vila Nova de Gaia, na outra margem do rio - é obrigatória. A ligação entre o Porto e Vila Nova de Gaia é feita pela charmosa e imponente Ponte DomLuís I. Uma visita peculiar é o Mercado do Bolhão, na Cidade Alta, região de comércio intenso.Fica entre as ruas de Santa Catarina e Sá da Bandeira. Lá há de flores a embutidos, secos e molhados e até artesanato. Seguindo a pé pela Rua de Santa Catarina, há o famoso Café Majestic, casa inaugurada em1921 em estilo art nouveau. Siga então pela Rua de Passos Manuel até a bela Avenida dos Aliados. A estação de trem de São Bento, na Praça Almeida Garrett, fica no caminho para a Cidade Baixa, aonde se chega descendo a Rua Mouzinho da Silveira. Aproveite para visitar o Palácio da Bolsa. O passeio termina no Cais da Ribeira, ponto de ótimos restaurantes. Outro passeio interessante pode começar na Igreja de São Francisco, ao lado do Palácio da Bolsa. É de lá que sai o "eléctrico"1E, cujos trilhos seguem à margem do Douro até sua foz, na parte mais nova da cidade. São visitas obrigatórias ainda, a Torre dos Clérigos, na Cidade Alta, ao lado do bairro da Cordoaria, com suas grandes praças e jardins, e a Livraria Lello, a mais tradicional da cidade e reduto de intelectuais. Na volta para Lisboa pode ainda haver tempo para uma parada em Coimbra. Cortada pelo belo Rio Mondego, a cidade tem um movimentado centro, que se abre a partir da Praça do Comércio, e segue colina acima até a Universidade de Coimbra, que abriga a faculdade de direito mais antiga do mundo. Vale também conhecer a Biblioteca Joanina, de decoração talhada em madeiras exóticas e ouro... Adivinhe de onde? Do Brasil, é claro. Lisboa, que foi o ponto de partida, está próxima de novo. Prepare seu coração, pois a sensação de que uma viagem tão rica e diversa já está chegando ao fim provoca um aperto forte. Mas, só depois de fazer as malas e embarcar de volta ao Brasil é que você vai entender, de fato, porque terá de voltar. E, principalmente, vai entender porque a palavra "saudade" foi criada pelos portugueses e só existe na última flor do Lácio.
Quando ir
A primavera é a época indicada para conhecer principalmente o interior de Portugal, que fica tomado por flores silvestres. É também o momento das grandes festas religiosas, como a Romaria a Fátima, que ocorre no mês de maio e atrai multidões de devotos. Eles celebram a aparição daquela que ficou conhecida como Nossa Senhora de Fátima que, em1918, fez revelações a três pastorinhos. Mas atenção: quem deixar para ir no fim de maio pode pegar o tempo chuvoso.Já o outono desponta como a estação ideal para quem aprecia vinho, pois em setembro começa a vindima (colheita das uvas), que dá um charme ímpar e festivo às regiões do Alentejo e Dão.
Portugal: Muito mais que bacalhau!
A gastronomia portuguesa é constituída por peixes, carnes, vegetais e frutas. Apesar das águas em Portugal serem ricas em peixe fresco, o prato nacional continua a ser o bacalhau seco e salgado, que muitas vezes é importado. Mas em Portugal você encontra outras opções saborosas da culinária de cada região:
Na região de Algarve, os peixes - e, claro, o bacalhau -, crustáceos e frutos do mar, como os chocos (cefalópode como a lula, originário da Ilha da Madeira) dão o toque da culinária local, preparados na cataplana, uma curiosa panela típica com tampa em forma oval e semi vedada, que permite que os alimentos sejam cozidos no próprio caldo. Não deixe de experimentar, de preferência (bem) acompanhada por vinho verde branco gelado.
O Alentejo é famoso também por sua culinária. É lá que se faz o excelente queijo de leite de ovelha. O presunto, defumado, também é muito saboroso, assim como embutidos de toda a sorte e a carne de borrego (cordeiro com menos de um ano). O pão de trigo é ingrediente básico para a Açorda, uma espécie de sopa de pão e que pode levar bacalhau. Para acompanhar tudo isso, não dispense um bom tinto alentejano, maduro e de sabor encorpado e vigoroso.
ONDE COMER
ALBUFEIRA
Tasca do Viegas (Rua Cais Herculano, 2, tel. (00XX289) 51-4087): é um dos restaurantes mais antigos da cidade. O peixe e os frutos do mar frescos, preparados na cataplana, são a especialidade, assim como o bacalhau na brasa.
COIMBRA
A Taberna (Rua dos Combatentes da Grande Guerra, 86, tel. (00XX239) 71-6265): cozinha portuguesa e regional, em ambiente simples e com ótimo serviço. Entre as especialidades, o bacalhau assado na brasa com batatas ao murro, além do cabrito assado, são uma boa pedida.
ÉVORA
Restaurante Fialho (Travessa dos Mascarenhas, 16, tel. (00XX266) 70-3079): especializado na cozinha alentejana, serve ótima comida e tem boa carta de vinhos. O serviço é excelente. Serve petiscos típicos alentejanos de entrada, como o presunto defumado. Bacalhau assado e carnes como a perna de cabrito são outros destaques. Fecha às segundas-feiras.
LISBOA
Martinho da Arcada (Praça do Comércio, 3): fundado em 1782, seu cardápio privilegia a cozinha regional portuguesa, com alguma influência da cozinha francesa. Nas primeiras décadas do século 20, o poeta Fernando Pessoa era um de seus fregueses ilustres. Hoje em dia, o lugar ainda é freqüentado por intelectuais, mas executivos e turistas engrossam o rol de clientes.
Bica do Sapato (Armazém B, Cais da Pedra, na região das Docas, tel. (00XX218) 81-0320): restaurante da moda, tem ambiente que mistura o retrô e o futurista.
PORTIMÃO
A Concha: restaurante simples, mas com boa comida. Serve de entrada o gaspacho, uma sopa fria, tipicamente mediterrânea, feita de pão, tomate, pimentões e temperos. Há também a tradicional sardinha assada na brasa e lulas à sevilhana.
PORTO
Abadia (Rua Ateneu Comercial, 22/24, tel.: (00XX222) 00-8757): localizado no centro antigo da cidade, serve especialidades da região, como as tripas à abadia (uma variação das tripas à moda do Porto) e o bacalhau. Filha da Mãe Preta (Cais da Ribeira, 40, tel. (00XX222) 05-5515): um dos muitos restaurantes que funcionam no Cais da Ribeira, às margens do rio Douro. Serve peixes e frutos do mar, como o arroz de marisco, e o prato tradicional do Porto, as tripas à moda do Porto.
VISEU
Muralha da Sé (Adro da Sé, s/nº, tel. (00XX232) 43-7777): ótima cozinha e excelente carta de vinhos, com descrições de características, sabor e até classificação por custo-benefício. Destaque para os tintos do Dão, o vinho da região. Oferece ainda um menu turístico de degustação para duas pessoas, que inclui entrada, prato principal e sobremesa. Entre os pratos à la carte estão o bacalhau Tia Matilde e a vitela de Lafões.
Portugal: Pequeno país!
Portugal está situado ao extremo mais ocidental da Europa, ocupa a maior parte da fachada atlântica da Península Ibérica com uma superfície continental de 88.500 Km² e uma área total de 91.676 km².
O território de Portugal inclui ainda os arquipélagos dos Açores e da Madeira. O arquipélago da Madeira fica situado no Oceano Atlântico a cerca de 566 milhas a sudoeste de Lisboa e é constituído pelas ilhas da Madeira, Porto Santo, Desertas e Selvagens. O arquipélago dos Açores, situado no Oceano Atlântico a 760 milhas de Lisboa e a 2110 de Nova Iorque, é formado por nove ilhas e alguns ilhéus: Santa Maria, São Miguel, Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo.
A característica forma retangular, tem uma longitude de norte a sul de 561 quilômetros e de leste a oeste 218 quilômetros. Tem fronteiras, apenas com Espanha, e estão determinadas por linhas artificiais e vários cursos fluviais: ao norte, o rio Minho, ao oeste, os rios Douro, Tejo e o Guadiana, enquanto que o Oceano Atlântico constitui o limite ocidental e meridional. Fazendo de Portugal um dos "pequenos países" de Europa, o país está dividido administrativamente em 11 províncias e 22 distritos, incluindo as ilhas.
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